segunda-feira, 11 de abril de 2011

TRAGÉDIAS DO BULLYING II

Por Liliana Ribeiro

Como a capacidade de discernimento do jovem tem sido estimulada pela abordagem da mídia aos casos de bullyng? Não sendo possível filtrar entre mensagens educativas, inócuas, ingênuas ou perniciosas, não sendo possível impedir o acesso a nenhuma informação, como criar mecanismos nos meios de comunicação e para comunicadores que sejam eficientes para estimular o discernimento, a atitude moral, a consciência dos riscos e das necessidades da vida social? Qual a fronteira entre o que que é domínio do profissional da educação e o que pode ser feito pela área da comunicação?

O Fantástico de umas semanas atrás mostrou o caso do rapper EMiCida, que relatou sua relação com o bullying e disse que várias vezes passou pela cabeça dele fazer igual aos casos que ele tinha visto na TV e chegar e matar todos, e que graças a Deus alguma coisa o impediu disso naquela época.

Sua maior reação, me parece, foi abandonar o colégio. A indignação ele canalizou para seu estilo musical. O PC Siqueira, VJ da MTV, também largou a escola, e trabalhou o preconceito se expondo na web.

A atual geração de humorísticos e alguns comentários que são postados nas redes demonstram que o bullying é tratado de forma semelhante ao racismo e outros preconceitos. Basicamente, apenas aqueles que se sentem vitimizados percebem nas "tiradas inteligentes e descoladas" algum desconforto.

O que acontece continuamente e intensamente só entra na agenda midiática quando ocorre alguma crise ou tragédia. As coberturas seguem fórmulas similares de espetacularização. Pouco se reflete sobre o que está sendo urdido silenciosamente em mentes feridas ou doentes e ainda provocado ou estimulado pela criatividade preconceituosa.

Sobre o assunto:
>>Wellington Menezes era vítima de 'bulliyng"nos tempos da escola
>>Emicida no Fantástico - Matéria sobre Bullying
>>PC Siqueira e bullying

TRAGÉDIAS DO BULLYING I

Por Liliana Ribeiro

Dentre as várias coberturas jornalísticas feitas sobre o trágico acontecimento em Realengo, que nos saturam de informação e nos entorpecem pelo sensacionalismo, hoje pela manhã eu estive assistindo uma matéria no programa Hoje em Dia (Record) que buscava traçar o perfil do atirador e entre os vários depoimentos colhidos, houve um de um colega de 5ª série que usou o termo bullying paras descrever a relação entre Wellington e os demais colegas de classe à época.

O entrevistado dizia, até com um meio sorriso na face, que Wellington era avacalhado por ser "lerdão" e que tinha apenas um outro menino que andava com ele. As gozações e ofensas eram comuns e já naquela fase, os próprios colegas diziam que ele, um dia, iria pegar uma arma e sair atirando nos outros, segundo contava o entrevistado.

Tentando isolar alguma reflexão de julgamentos do horror do ato consumado, penso sobre uma relação dos meios de informação (educacionais e midiáticos) que essa conduta dos colegas deixa transparecer. A questão é bastante delicada.

Os alunos daquela 5ª série, há alguns anos, já tinham noção do que era bulliyng mesmo sem sistematizar uma análise mais aprofundada ou científica do conceito. Já sabiam o quanto era cruel, já sabiam dos riscos da conduta de quem era vitimizado e, mesmo assim, mantinham as chacotas.

Essa consciência não foi impedimento nem freio, e nem provocou uma ação mais efetiva dos educadores. Ao meu ver, por algum motivo que deve ser melhor estudado, na ação da mídia há um reforço negativo, ao menos na releitura feita pelos adolescentes, em relação ao bullying, fomentando ainda mais novos atos de bulismo.

Não sei se tem a ver com espetacularização da notícia, com o sensacionalismo das apurações, com a celebrização de personagens ocos, polêmicos ou vulgares. Como se o resumo na cabeça da gurizada fosse: "Ah tá, carinha que é quietão, estranho, ou que sofre gozação na escola = atirador, então vamos ACRESCENTAR mais essa ofensa ao repertório." E na cabeça do bulinizado: "Se é isso que esperam de mim, um dia eles vão ver!"

Mundo doidão esse nosso!